Amor à primeira vista: Neymar e Barcelona, uma combinação perfeita
Neymar em sua estreia no Camp Nou: Molecada já se ouriça em catalão / Crédito:
AFP
"Neymar Jr.! Quem pediu esta do Neymar Jr.?” Suada e apressada, a funcionária da megastore do Camp Nou anunciou que mais uma camisa do novo número 11 do Barcelona acabava de sair da máquina de impressão de letras. Faltava 1 hora e 15 minutos para o início do amistoso do time da casa contra o Santos e a loja — segunda sede Nike com o maior faturamento no mundo, atrás apenas da matriz em Nova York — estava abarrotada. “Neymar Jr.” eram as palavras que mais se liam e se escutavam por ali.
O alvoroço se justificava. Após alguns minutos disputados no amistoso contra o Lechia Gdansk na Polônia três dias antes, a nona contratação mais cara da história do futebol — 57 milhões de euros — fnalmente estrearia em casa, para um Camp Nou com grande público. E atuaria pela primeira vez ao lado de Lionel Messi.
Ainda que custem salgados 99,95 euros (cerca de 300 reais), as camisetas do Barça lotavam os carrinhos de compra dos fregueses, gente de todas as idades, oriunda de dezenas de países diferentes. Naquela quentíssima sexta-feira, apenas as estampadas com o nome de Neymar, item praticamente obrigatório debaixo dos braços dos ocupantes das longas filas dos caixas, contavam com uma sessão de cabides própria. Os mantos de “parças” de vestiário como Iniesta, Xavi e até ele, Messi, se espremiam em um mesmo departamento da loja.
“Não tenho nem ideia de quantas marquei com o nome dele hoje, mas foram muitas”, disse outro funcionário ofegante. À beira de um ataque de nervos diante da profusão de compradores, a gerência se recusou a revelar o número preciso de “Neymar Jr.” vendidos naquele dia, quando o Barça aplicaria no Santos uma das mais vexatórias surras de sua história (8 x 0).
Mas a reportagem da PLACAR, que visitara outros pontos de venda com produtos do clube — autorizados ou não —, apurou que nas maiores, como na Nike da avenida central Passeig de Gràcia, até 50 exemplares, além de cerca de 25 pares de chuteiras do craque, vêm sendo adquiridos diariamente.
Mais que Messi
“Ele está passando o Messi”, afirmara um dia antes um vendedor de outra sede, próxima a outra avenida arterial barcelonesa, Paral-lel. Tal estimativa, por sinal, bateria com a do responsável pela barraquinha de camisetas “não oficiais” em frente ao Camp Nou, arrematadas por 50 euros. “Vendemos hoje entre 20 e 25 camisas do Neymar, mais ou menos a mesma coisa que o Messi”, relatou o comerciante, pouco antes da partida ante o Peixe, debaixo de varal-mostruário onde “Leo” e “Ney” travam outro duelo de igual para igual: duas peças de cada um e outra solitária de Andrés Iniesta em exposição. Na loja da Plaça Catalunya, no centro, encontra-se de cartão-postal a uniforme tamanho bebê identifcados com a marca do ex-santista. Pela mesma praça passa ônibus rumo ao aeroporto trazendo banner lateral no qual o astro brasileiro já aparece como protagonista, ao lado de Messi, Xavi, Iniesta e Puyol.
Gastronomicamente, a chegada de Neymar começou com surpresa. O restaurante Celler de Can Roca, no norte da Catalunha, reconhecido pela revista Restaurant Magazine como o melhor do mundo, criou uma sobremesa com o nome do craque — uma mistura de nozes, hortelã e sorbet de caipirinha.
Histérica, a imprensa esportiva catalã praticamente não fala de outro assunto. Tudo relacionado a Neymar vira notícia. No dia da estreia em Barcelona, por exemplo, o diário Sport trazia, além da capa — na qual ele despontava segurando a taça do torneio amistoso, o tradicional Joan Gamper —, outras cinco reportagens centradas em sua fgura. No total, incluindo anúncios, oito fotografas do atleta ilustravam a edição. E a temporada europeia está apenas começando...
“Sou fã dele”, dizia o australiano Dimitri, uma das milhares de pessoas que compareceram ao Camp Nou para a festa com o “Neymar Jr.” enfeitando as costas. George, torcedor russo, era outro com o nome do brasileiro na camisa. Em alta entre o multinacional e multiétnico contigente de torcedores, a nova segunda camisa, com as listras vermelhas e amarelas da bandeira da Catalunha, compareceu quase tanto quanto o modelo clássico azul-grená. Houve espaço também para as inconfundíveis amarelinhas, inclusive com o 10 do brasileiro. O catalão Alejandro foi um dos que homenagearam simultaneamente a seleção e seu principal jogador. Quanto aos cortes de cabelo, agora que Neymar aposentou a famosa “crina moicana”, ainda não é possível observar a imitação entre os mais novos.
Dentro do Camp Nou
Dentro do estádio, a atmosfera era de expectativa. Normalmente utilizado para promover o début de estrelas trazidas a peso de ouro — Maradona, Romário e Ronaldo começaram assim suas trajetórias barcelonistas —, o troféu Joan Gamper funciona como uma espécie de noite de gala de apresentação do elenco e comissão técnica à torcida. Na 48ª edição, não seria diferente. Entre as atrações, outra estreia, a do técnico argentino Gerardo “Tata” Martino no comando da equipe.
Após discurso do capitão Puyol, que saudou sobriamente “as novas incorporações”, o efusivo narrador, que sublinhara a presença do debutante várias vezes, apresentou um a um os jogadores. Anunciado em catalão como “o que acaba de chegar!”, Neymar só não foi mais aplaudido que Messi. Mas a galera vibrou com ele mais do que com o trio de capitães suplentes Xavi, Valdés e Iniesta, que entraram em campo juntos. Após retribuir a ovação, o camisa 11 se posicionou timidamente ao lado de Leo. Só entraria no jogo na volta do intervalo, mas durante o primeiro tempo esteve na mira do público enquanto se aquecia, com especial performance ruidosa de um grupo de “neymarzetes” brasileiras que gritava em sua direção a cada ida à linha de fundo. Um invasor foi contido antes de se aproximar do astro, o qual supostamente pretendia abraçar.
Em campo, Neymar ousou menos do que se esperava, talvez ávido por mostrar disciplina tática, ou apenas constrangido pela humilhação vivida pelos ex-parceiros de Santos, que já apanhavam de 4 x 0. Deu, porém, bons passes — um dos quais terminou em gol de Fàbregas — e quase marcou o seu. Ao cobrar escanteio, arrancou os primeiros coros de “Nêêêy-mar, Nêêêy-mar”, com a acentuação equivocada dos locais e a mesma melodia monótona com a qual celebram todos os seus heróis barcelonistas: “Mêêê-ssi, “Ini-êêêsta”, “Pêêê-dro” etc.
Após o desfle fúnebre santista pela zona mista, a área de saída dos jogadores à qual jornalistas têm acesso, repórteres do mundo inteiro se acotovelaram para escutar o estreante. “Estou tendo a oportunidade de realizar meu sonho, fiquei feliz de começar com o pé direito, com vitória”, afirmou, em português, antes de admitir o desconforto. “Ao mesmo tempo, fiquei chateado. Hoje defendo o Barcelona, mas desejo todo o sucesso aos meus ex-companheiros. Fui lá no vestiário e falei com eles, quero que possam ganhar o Brasileirão.”
De tanto responder, nos últimos meses, sobre a possibilidade ou não de atuar ao lado de Messi, o discurso sobre o tema já saiu no automático. “O Messi é um ídolo, né? Um gênio”, elogiou. “Espero que a gente possa ser muito feliz aqui.” Montillo, meia do Santos que já atuou com um na seleção argentina e com o outro no Santos, endossara a tese minutos antes: “Acho que [a parceria] vai funcionar bem. O Neymar pode fazer história aqui no clube também”. Neilton também tivera boas palavras para o ex-colega: “É um garoto humilde, torço para que ele seja o melhor do mundo no Barcelona”.
Na engorda
A primeira polêmica envolvendo o nome de Neymar na Espanha foi sua magreza, fruto do período que se seguiu à extração de suas amígdalas, em 5 de julho. O procedimento, aliás, fora o causador do problema, já que ele perdeu mais sangue do que o esperado. Em exame realizado no Barcelona em 29 de julho, a anemia ainda aparecia. E, nos treinamentos, ele cansava mais do que os outros.
É claro que a “novidade” levantou discussões na imprensa espanhola. Alguns colunistas indagaram se a aparição da nova estrela azul-grená no confronto contra o Santos, no qual jogou por 45 minutos, não teria sido precipitada. Outros apostaram que essa anemia é um problema menor e passageiro, que será solucionado conforme Neymar avance nos treinamentos e siga a dieta rica em ferro apresentada pelo clube. Nenhuma mudança de rotina grave, tanto é que no amistoso seguinte, contra a seleção da Tailândia, ele atuou 45 minutos novamente, marcando seu primeiro gol com a nova camisa.
O próprio Neymar correu para abrandar a celeuma. “É verdade que depois da operação foi um pouco complicado, mas agora já estou melhor”, afirmou em evento promocional de um de seus patrocinadores em Bangcoc, Tailândia, em 6 de agosto. Independentemente da anemia, jornalistas e torcedores continuarão com uma pulga atrás da orelha com relação à magreza de Neymar. A primeira impressão, dele voando diante de trombadas com marcadores do Lechia Gdansk, da Polônia, foi a que ficou. E o consenso geral é que o craque deve seguir o rumo de seus ídolos e antecessores no Camp Nou Ronaldo e Ronaldinho: ganhar peso e musculatura.
“É verdade que Neymar triunfou no Brasil sem necessidade de se tornar excessivamente musculoso, treinando muito mais com bola do que na academia”, escreveu Javier Giraldo, em sua coluna no diário catalão Sport. “Mas as exigências do futebol europeu nos fazem pensar que um jogador de aparência tão frágil pode ter problemas em jogos mais físicos ou em campos mais pesados.” Mesmo antes que a perda de peso ganhasse os noticiários, os profissionais do departamento médico do Barcelona já propunham a engorda, com enfoque em musculatura peitoral e braços. Fala-se de 2 a 5 quilos extras. Resta saber se esses quilos a mais não representarão agilidade de menos.
*Colaborou Jordi Figueras, de Barcelona
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