Em Belém, cachorro-quente no capricho não tem salsicha: é com picadinho
Por Paulo Silber
Uma reclamação carinhosa à Folha: na crônica sobre o Dia do Cachorro-Quente, faltou incluir a tradicional receita deste sanduba na capital paraense. Aqui, a regra é clara: sanduíche com salsicha é outra coisa. No nosso, tem “boi ralado”.

A jornalista Larissa Morales, da Folha de S.Paulo, resolveu passear pelo Brasil atrás dos “latidos regionais” do cachorro-quente. No artigo publicado pelo jornal, ela mostra como cada canto do país encontrou uma maneira muito própria de colocar o famoso lanche dentro de um pão. Tem de tudo. E, em matéria de criatividade, brasileiro não costuma decepcionar. Mas houve um esquecimento. Belém ficou de fora desse tour culinário. E isso, para quem nasceu ou vive por estas bandas, é quase como contar a história do tacacá e esquecer a goma. Em Belém, cachorro-quente tem personalidade. E, principalmente, tem picadinho. Não se trata daquela salsicha que aparece, meio envergonhada, dentro do pão. Aqui, o recheio é outro: carne moída, o famoso picadinho, também chamado de “boi ralado”, além de molho e uma combinação de ingredientes que faz qualquer pessoa sensata perceber que o lanche deixou de ser simplesmente um lanche e passou a ser patrimônio afetivo. E há uma regra que deveria ser incluída nos manuais internacionais de gastronomia. Em Belém, cachorro-quente é com picadinho. Com salsicha, é hot dog. Pronto. Está explicado. E o nosso cachorro-quente ainda tem um endereço que não precisa de número: a rua. Ele nasceu e cresceu nos carrinhos de lanche, com a mesma certeza de que o brega mora nas aparelhagens. Os carrinhos de cachorro-quente são aquelas estruturas adaptadas que transformaram calçadas e esquinas em pequenas cozinhas sobre rodas. São estabelecimentos onde o cardápio costuma ser curto, a fila pode ser grande e a capacidade de montar um sanduíche memorável parece inversamente proporcional ao tamanho do lugar. É uma gastronomia democrática. O estudante, o trabalhador, o boêmio, o apressado e o sujeito que saiu de casa jurando que “só ia comer alguma coisinha” acabam encontrando o mesmo destino: um carrinho de lanches na calçada ou rente a ela, um pão e um picadinho capaz de resolver problemas que a psicologia ainda não conseguiu explicar. Você chega brocado. Come ali mesmo, sem cerimônia. E, dependendo do tamanho do sanduba, muitas vezes “adubado”, pode ter certeza de que o jantar daquela noite já está resolvido. A crônica de Larissa Morales sobre os cachorros-quentes brasileiros merece aplausos. Ela mostra justamente aquilo que o Brasil tem de melhor: a capacidade de pegar uma receita aparentemente simples e transformá-la em identidade. Só faltou Belém. E o nosso cachorro-quente não quer apenas participar da festa. Ele quer ser reconhecido. Afinal, em Belém, até o cachorro-quente tem sotaque.
Em Belém, cachorro-quente no capricho não tem salsicha: é com picadinho Uma reclamação carinhosa à Folha: na crônica sobre o Dia do Cachorro-Quente, faltou incluir a tradicional receita deste sanduba na capital paraense. Aqui, a regra é clara: sanduíche com salsicha é outra coisa. No nosso, tem “boi ralado”. 
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