Super El Niño põe Belém no forno, ameaça o Círio e transforma a velha fama de “cidade das chuvas” em uma ironia amazônica

Fenômeno deve ganhar força em setembro. Na capital, milhões estarão nas ruas em outubro. No interior, comunidades já sabem que pode faltar água onde antes sobrava até novembro.


Por Paulo Silber


                           Super El Niño põe Belém no forno, ameaça o Círio e transforma a velha fama de “cidade das chuvas” em uma ironia amazônica

                                          Reprodução/Alessandra B. Fratus


Belém conhece calor. Conhece chuva. Conhece aquele sol que parece ter algum problema pessoal com o cidadão. Mas há uma diferença entre o calor de sempre e o que está se desenhando para os próximos meses. Desta vez, o clima não está apenas incomodando. Está avisando.

As projeções mais recentes apontam 90% de chance de o El Niño ser “muito forte” entre setembro e novembro, com temperaturas acima da média, menos chuva na Amazônia e maior risco de seca e queimadas. O Pará já decretou alerta climático e começou a preparar ações para o cenário.

Para quem mora para estas bandas, existe uma diferença entre ouvir falar de mudança climática e senti-la no corpo. É a diferença entre ler “temperatura acima da média” e procurar uma sombra às 10 da manhã. É aí que a conversa sobre El Niño deixa de ser meteorologia e vira vida real.

Belém terá ainda um ingrediente adicional: o Círio de Nazaré. Em outubro, cerca de 2 milhões de pessoas deverão circular pela capital. Será uma das maiores demonstrações de fé do país e, dependendo do termômetro, também um gigantesco teste de resistência física.

Imagine a cena: multidão, corda, asfalto quente, umidade amazônica e sol forte. A fé move montanhas. Mas, nesse caso, talvez seja prudente garantir que também mova caminhões-pipa, ambulâncias e postos de hidratação.

O belenense desenvolveu técnicas ancestrais de sobrevivência: ventilador apontado para a rede, copo de água gelada, ar-condicionado tratado como parente rico e aquela expressão “lá vem ela!” na ponta da língua. O problema é que o clima está começando a mostrar que “ela” não vem.

Mas quem dera que o problema terminasse na capital. A seca de 2023-2024 já mostrou o tamanho do estrago. Rios baixaram a níveis históricos, comunidades ficaram isoladas e houve mortandade de peixes e até de botos. Para quem vive às margens dos grandes rios, aquilo não foi estatística: foi o barco que não passou, o peixe que desapareceu, a água que faltou.

O fenômeno é natural. O que não é natural é a floresta chegar a cada novo episódio mais degradada, mais quente e mais inflamável. Desmatamento e aquecimento global não criaram o El Niño, mas ajudam a turbinar seus efeitos. É como entregar os fósforos para quem já está sentado sobre um barril de pólvora.

Agora, a Amazônia se prepara para outra pancada, sem saber exatamente quanto tempo ela vai durar. E o paraense, claro, continuará fazendo o que sempre fez: improvisando, procurando sombra, comprando água e esperando aquela chuva que manda o cheiro antes de desabar.

Só que não se combate uma emergência climática apenas com resistência, mano. Belém precisa estar preparada para o Círio. O interior, para a seca. As brigadas, para o fogo. E o governo, para atender quem vive longe dos centros urbanos. Justamente quem costuma aparecer por último nas planilhas e primeiro nas tragédias.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NOTA DE APOIO

Fique Antenado: Os softwares das eleições estão sendo testados

Em Monte Alegre cinco pessoas de uma mesma família são diagnosticadas com doença de chagas após consumo de açaí